Narcisismo: como funciona a mente de uma pessoa narcisista?

29 de julho de 2026 Gustavo Vinicius | Psicólogo

O termo narcisismo nunca foi tão utilizado. É comum encontrar nas redes sociais vídeos ensinando a identificar um narcisista, relatos de relacionamentos com pessoas narcisistas ou listas de comportamentos que supostamente revelariam esse tipo de personalidade.

Embora esse interesse tenha contribuído para que as pessoas reconhecessem relações prejudiciais, ele também trouxe um problema: a palavra “narcisismo” está sendo usada de forma genérica. Hoje é comum associar a pessoas egoístas, vaidosas, arrogantes ou difíceis de conviver o termo narcisista, mesmo sem apresentar um funcionamento psicológico compatível com esse termo.

Na Psicologia, porém, o narcisismo é um fenômeno muito mais complexo. Ele não se resume a alguém que gosta demais de si mesmo nem significa que a pessoa tenha um transtorno de personalidade por si só. Em diferentes graus, características narcisistas fazem parte do funcionamento humano e estão presentes, em alguma medida, em todas as pessoas.

Ao mesmo tempo, quando esses traços se tornam muito intensos e rígidos, podem gerar sofrimento e comprometer significativamente os relacionamentos e a forma como a pessoa lida consigo mesma e com o mundo.

O que é narcisismo?

Na Psicologia, o narcisismo, antes de qualquer coisa, faz parte do desenvolvimento emocional de todos os seres humanos. Nos primeiros anos de vida, o bebê ainda não consegue diferenciar claramente a si mesmo do mundo ao seu redor. Ele depende dos cuidados e do olhar das pessoas que o cercam para construir, pouco a pouco, sua identidade, sua autoestima e seu sentimento de valor pessoal.

Segundo a Psicanálise, essa fase inicial recebe o nome de narcisismo primário. Nesse momento, a criança é o centro da própria experiência: suas necessidades e emoções ocupam grande parte de seu mundo psíquico. À medida que se desenvolve, passa a reconhecer que os outros também possuem desejos, sentimentos e necessidades próprios. Em um desenvolvimento saudável, ela descobre duas coisas ao mesmo tempo: quem ela é e que o outro também existe.

À medida que cresce, a criança passa a perceber que as outras pessoas também possuem desejos, sentimentos e necessidades próprias. Ela deixa de enxergar o mundo apenas a partir de si mesma e começa, gradualmente, a reconhecer a existência do outro como alguém separado dela.

Esse passo é essencial para o desenvolvimento emocional. Aos poucos, a criança aprende que nem sempre será o centro das atenções, que pode errar, sentir frustrações e lidar com limites, sem que isso coloque em risco seu valor pessoal. Ao mesmo tempo, desenvolve a capacidade de considerar as necessidades das outras pessoas, tolerar diferenças e construir relações mais recíprocas.

Quando esse processo acontece de forma saudável, o narcisismo continua existindo, mas deixa de ocupar um lugar central. Ele se transforma na capacidade de reconhecer as próprias qualidades, aceitar limitações e manter uma autoestima estável, sem depender constantemente da admiração dos outros ou da sensação de superioridade.

Quando esse processo encontra dificuldades, a pessoa pode permanecer excessivamente centrada na necessidade de confirmar o próprio valor, buscando constantemente admiração, reconhecimento e validação. Como consequência, torna-se mais difícil reconhecer verdadeiramente o outro em sua singularidade. Os relacionamentos passam a ser vividos em função das próprias necessidades emocionais, e não como um encontro entre duas pessoas com desejos e limites diferentes.

Narcisismo não é um transtorno

Embora o narcisismo faça parte do desenvolvimento humano, ele pode assumir formas diferentes ao longo da vida. Em algumas pessoas, torna-se apenas uma característica da personalidade. Em outras, transforma-se em um modo rígido de perceber a si mesmas, os outros e a realidade.

Sob a perspectiva psicanalítica, isso pode acontecer quando a construção da autoestima encontra dificuldades importantes durante o desenvolvimento emocional. Como a pessoa não consegue consolidar um sentimento interno de valor suficientemente estável, ela passa a depender intensamente de confirmações externas para se sentir importante, admirada ou especial.

Para sustentar esse equilíbrio emocional, podem surgir mecanismos de compensação. A pessoa cria uma imagem idealizada de si mesma e procura preservá-la a qualquer custo. Reconhecer falhas, aceitar críticas ou admitir limitações pode se tornar extremamente ameaçador a essa imagem, pois essas experiências despertam sentimentos de vergonha, insuficiência ou fracasso que ela tem dificuldade de sentir e elaborar.

Nesse processo, a percepção da realidade também pode sofrer distorções. Em vez de adaptar a própria imagem aos fatos, torna-se mais fácil reinterpretar os acontecimentos de forma que preservem essa identidade idealizada, ou seja, distorcer os fatos. Da mesma forma, as necessidades e sentimentos das outras pessoas podem acabar ocupando um lugar secundário diante da necessidade constante de proteger a própria autoestima.

Quando esse padrão se torna persistente, inflexível e provoca prejuízos significativos nos relacionamentos, no trabalho e em outras áreas da vida, ele pode caracterizar o Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN). Tanto o DSM-5-TR quanto a CID-11 descrevem esse transtorno como um padrão duradouro de funcionamento marcado por grandiosidade (percepção exagerada de si mesma e da própria importância, que pode ser manifesta ou sutil), necessidade intensa de admiração e prejuízos importantes na capacidade de estabelecer relações interpessoais saudáveis.

Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN)

Segundo o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o transtorno faz parte dos transtornos da personalidade do Grupo B, caracterizados por padrões persistentes de funcionamento marcados por instabilidade emocional, impulsividade ou comportamentos dramáticos e interpessoais disfuncionais.

Já a CID-11 (Classificação Internacional de Doenças) adota uma abordagem diferente. Em vez de separar rigidamente os transtornos da personalidade em categorias, ela avalia o grau de comprometimento do funcionamento da personalidade e descreve os traços predominantes apresentados pela pessoa. O funcionamento narcisista costuma aparecer associado a traços de grandiosidade, preocupação excessiva consigo mesmo e dificuldades importantes nas relações interpessoais.

Apesar das diferenças entre os dois sistemas de classificação, ambos concordam que o transtorno envolve um padrão persistente de funcionamento que causa sofrimento ou prejuízos significativos na vida da pessoa e nas suas relações.

De forma resumida, pessoas com Transtorno de Personalidade Narcisista costumam apresentar características como:

  • sentimento grandioso da própria importância;
  • necessidade intensa de admiração e reconhecimento;
  • fantasias frequentes de sucesso, poder, beleza ou inteligência excepcionais;
  • crença de ser especial ou diferente das demais pessoas;
  • expectativa de receber tratamento privilegiado;
  • tendência a explorar outras pessoas para alcançar objetivos próprios;
  • dificuldade em reconhecer ou considerar os sentimentos e necessidades alheias;
  • inveja dos outros ou crença de ser alvo da inveja deles;
  • comportamentos ou atitudes percebidos como arrogantes ou presunçosos.

Entretanto, essas características não precisam estar presentes da mesma forma em todas as pessoas. O narcisismo pode se manifestar de maneiras diferentes. Algumas pessoas demonstram sua grandiosidade de forma aberta e chamativa, enquanto outras aparentam insegurança, fragilidade ou até timidez, mas continuam extremamente dependentes da validação externa e muito sensíveis à forma como são vistas pelos outros.

Além disso, a presença isolada de alguns desses traços não é suficiente para estabelecer um diagnóstico. O Transtorno de Personalidade Narcisista só pode ser identificado por um profissional qualificado, após uma avaliação clínica cuidadosa, levando em consideração a história de vida, a intensidade desses padrões e os prejuízos que eles provocam.

Como funciona a mente de uma pessoa narcisista?

Para compreender a mente de uma pessoa com forte funcionamento narcisista, é preciso abandonar o senso comum de que ela simplesmente “se acha melhor que todo mundo”. Embora isso possa parecer verdade em muitos momentos, o funcionamento psicológico do narcisismo costuma ser mais complexo.

Sob a perspectiva psicanalítica, a grandiosidade (percepção exagerada de si mesma e da própria importância) funciona como uma forma de proteger a autoestima frágil. Apesar de parecer representar uma confiança sólida a olhos leigos, ela serve como uma defesa contra sentimentos profundos de insuficiência, vergonha ou fracasso. Quanto mais ameaçada a pessoa se sente internamente, maior pode ser a necessidade de preservar uma imagem idealizada de si mesma.

Essa imagem passa a ocupar um lugar central em sua vida psíquica. Ela precisa ser constantemente confirmada para que a pessoa consiga manter uma sensação de estabilidade emocional. Por isso, elogios, reconhecimento, sucesso, status ou demonstrações de admiração deixam de ser apenas agradáveis e se tornam quase indispensáveis para sustentar a forma como ela se percebe. É justamente por isso que críticas, rejeições ou fracassos costumam ser vividos de maneira muito intensa.

Enquanto muitas pessoas conseguem reconhecer um erro sem colocar em dúvida todo o seu valor pessoal, para alguém com narcisismo essas situações podem representar uma ameaça à própria identidade. Em vez de refletir sobre a crítica, ela pode sentir a necessidade de negá-la, justificá-la ou atribuí-la aos outros para preservar a imagem que construiu de si mesma.

Outro aspecto importante é a forma como essa pessoa percebe os relacionamentos. Como sua energia psíquica está fortemente voltada a proteger a própria autoestima, pode haver dificuldade em reconhecer o outro como alguém com desejos, necessidades e perspectivas independentes. Em vez de ser um encontro entre duas realidades, os relacionamentos tendem a ser reduzidos ao que o outro pode oferecer para manter sua estabilidade emocional, como admiração, validação, obediência ou reconhecimento.

Isso não significa que pessoas com narcisismo sejam incapazes de criar vínculos ou de demonstrar afeto. No entanto, seus relacionamentos podem tornar-se mais frágeis quando deixam de fornecer aquilo que sustenta sua identidade idealizada. Nesses momentos, o outro pode ser facilmente desvalorizado, culpabilizado ou substituído, caso passe a representar uma ameaça à imagem que a pessoa precisa manter de si mesma.

Em razão desse funcionamento, a realidade também pode ser interpretada de maneira seletiva. Informações que confirmam a imagem idealizada tendem a ser valorizadas, enquanto as que contradizem podem ser minimizadas, reinterpretadas ou rejeitadas, independentemente de serem fatos. Esse mecanismo ajuda a proteger a autoestima no curto prazo, mas dificulta o desenvolvimento de uma percepção mais equilibrada sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo.

Sob essa perspectiva, a questão central não é um excesso de amor por si mesmo, mas a necessidade constante de proteger uma imagem idealizada de quem ela acredita precisar ser. É essa imagem – e não necessariamente a pessoa real – que precisa ser admirada, confirmada e preservada. Esse funcionamento interno acaba influenciando profundamente a maneira como a pessoa percebe os outros e se relaciona com eles.

Como o funcionamento narcisista aparece nos relacionamentos?

Como vimos anteriormente, uma pessoa com narcisismo costuma depender da manutenção de uma imagem idealizada para preservar sua autoestima. Por isso, os vínculos podem deixar de ser um espaço de troca entre duas pessoas e passar a desempenhar, principalmente, a função de confirmar essa identidade.

Isso não significa que ela seja incapaz de amar, criar laços ou demonstrar afeto. No entanto, suas necessidades emocionais podem ocupar um espaço tão central que as necessidades do outro acabam sendo colocadas em segundo plano.

Essa dinâmica pode aparecer de diferentes maneiras.

A necessidade de ter sempre razão

Para a maioria das pessoas, admitir um erro é desconfortável, mas faz parte da convivência. Já para alguém com forte funcionamento narcisista, reconhecer que estava errado pode representar uma ameaça muito maior: a possibilidade de enfraquecer a imagem idealizada que construiu de si mesmo.

Por isso, algumas discussões deixam de ser uma tentativa de compreender o que realmente aconteceu e passam a ser uma disputa para preservar uma determinada narrativa.

É comum que a pessoa apresente inúmeras justificativas para suas atitudes, retome o mesmo assunto repetidas vezes ou tente convencer o outro de que sua interpretação dos fatos é a única correta. Em alguns casos, pode buscar aliados para confirmar sua versão ou minimizar acontecimentos que coloquem sua imagem em risco.

Manipulação como forma de proteger a própria imagem

Muitas estratégias manipulativas surgem de forma automática, como uma tentativa de evitar sentimentos de vergonha, rejeição ou fracasso. Nem sempre é um plano frio e calculado, apenas reativo. Em vez de reconhecer o próprio desconforto, a pessoa procura reorganizar a situação para recuperar a sensação de controle.

Isso pode acontecer por meio de justificativas constantes, inversão de responsabilidades, vitimização, culpabilização, omissão de informações, elogios interessados ou outras formas de influência sobre o comportamento do outro.

O objetivo psicológico, na maioria das vezes, não é simplesmente controlar as pessoas, mas proteger a autoestima e preservar a identidade idealizada.

Quando a realidade passa a ser reinterpretada

Outro aspecto frequente é a dificuldade em aceitar informações que contradizem a própria imagem. Quando isso acontece, alguns fatos podem ser reinterpretados, minimizados ou apresentados de forma diferente da que ocorreram. Em determinadas situações, a pessoa insiste tanto em sua versão dos acontecimentos que aqueles ao seu redor começam a duvidar da própria percepção.

Esse processo nem sempre ocorre de maneira consciente. Muitas vezes, a própria pessoa acredita sinceramente na narrativa que construiu, justamente porque ela reduz o sofrimento causado pela possibilidade de reconhecer falhas ou limitações.

O outro deixa de ser visto como um sujeito

Um relacionamento saudável pressupõe reconhecer que o outro possui desejos, sentimentos, limites e necessidades próprias. No funcionamento narcisista, entretanto, isso pode se tornar mais difícil.

Como grande parte da energia psíquica está voltada para proteger a própria autoestima, o outro corre o risco de ser percebido apenas pela função que exerce: alguém que admira, valida, atende expectativas ou confirma uma determinada imagem.

Por essa razão, alguns relacionamentos tornam-se excessivamente utilitários. O valor atribuído ao outro pode depender menos de quem ele é e mais daquilo que representa para a manutenção da autoestima e da identidade da pessoa com funcionamento narcisista. O outro deixa de ser um fim em si mesmo e passa a ser um meio para sustentar a própria identidade.

Quando deixa de desempenhar esse papel ao estabelecer limites, discordar, fazer críticas ou simplesmente priorizar as próprias necessidades, o vínculo pode se tornar instável. Não é incomum que a pessoa com narcisismo passe a desvalorizar, culpar ou afastar quem antes era intensamente admirado.

Essa mudança nem sempre acontece por falta de afeto, mas porque o relacionamento deixa de cumprir a função psicológica que ajudava a sustentar sua identidade.

A dificuldade em pedir desculpas

Esse é um comportamento que quase todo mundo associa ao narcisismo, mas poucos explicam.

Pedir desculpas, para muitas pessoas, significa apenas reconhecer um erro. Já para alguém com forte funcionamento narcisista, pode significar admitir uma imperfeição que ameaça toda a identidade idealizada. Por isso, em vez de um pedido de desculpas genuíno, podem surgir justificativas, minimizações, mudanças de assunto, transferência de culpa ou pedidos de desculpas condicionais (“desculpa se você entendeu assim”).

Como o narcisismo se desenvolve?

Não existe uma única explicação para o desenvolvimento do funcionamento narcisista. A personalidade humana é resultado da interação entre fatores biológicos, temperamentais, familiares, sociais e das experiências vividas ao longo da vida.

Entretanto, a Psicanálise oferece uma das teorias mais influentes para compreender como esse modo de funcionamento pode se desenvolver. Segundo essa perspectiva, a forma como a criança constrói sua autoestima nos primeiros anos de vida exerce um papel importante na maneira como ela aprenderá a lidar consigo mesma e com os outros.

Durante a infância, toda criança precisa se sentir vista, acolhida e valorizada. Essa experiência contribui para que desenvolva um sentimento interno de segurança e de valor pessoal, tornando-se, aos poucos, menos dependente da aprovação constante das outras pessoas.

Quando esse processo encontra dificuldades, porém, a construção da autoestima pode se tornar mais frágil. Em vez de desenvolver um sentimento estável sobre quem é, a pessoa pode passar a depender excessivamente do olhar do outro para sentir-se importante.

Diversos fatores podem contribuir para isso. Alguns autores descrevem, por exemplo, ambientes em que a criança recebeu admiração apenas quando correspondia a determinadas expectativas, foi excessivamente criticada ou humilhada, teve suas necessidades emocionais negligenciadas ou, em sentido oposto, foi constantemente colocada em um lugar de superioridade, sem aprender a lidar com limites e frustrações.

Apesar de diferentes entre si, essas experiências podem produzir um resultado semelhante: a dificuldade em construir uma autoestima suficientemente estável.

Como forma de adaptação, a criança pode desenvolver uma imagem idealizada de si mesma. Essa imagem funciona como uma proteção contra sentimentos de insuficiência, vergonha ou desvalor. Ao longo da vida, ela passa a investir grande parte de sua energia na manutenção dessa identidade, buscando constantemente experiências que a confirmem e evitando tudo aquilo que possa ameaçá-la.

Talvez o mais importante seja compreender que o funcionamento narcisista não costuma surgir por uma simples escolha consciente. Trata-se de uma forma de organização da personalidade construída ao longo do desenvolvimento, como uma tentativa ainda que desadaptativa de preservar a autoestima e reduzir o sofrimento psíquico.

Como é se relacionar com uma pessoa com narcisismo?

Conviver com uma pessoa que apresenta forte funcionamento narcisista pode ser emocionalmente desgastante, especialmente quando o relacionamento é próximo, como em casamentos, relações familiares, amizades ou ambientes de trabalho.

Isso acontece porque as necessidades emocionais dessa pessoa tendem a ocupar um espaço muito central na relação, de forma tão intensa que o outro acaba, muitas vezes, tendo suas necessidades, sentimentos e limites colocados em segundo plano.

No início do relacionamento, é comum que a convivência seja bem intensa. A pessoa pode demonstrar grande interesse, admiração, atenção ou encantamento. Entretanto, à medida que o vínculo se fortalece e surgem frustrações naturais da convivência, podem aparecer dificuldades para lidar com críticas, divergências ou limites estabelecidos pelo outro.

Nesses momentos, alguns relacionamentos passam por ciclos de idealização e desvalorização. A mesma pessoa que antes era vista como excepcional pode passar a ser criticada, culpabilizada ou considerada insuficiente quando deixa de corresponder às expectativas ou de sustentar a autoestima da outra. É comum que a pessoa com narcisismo espalhe destruição da reputação dessa pessoa.

Com o tempo, quem convive com esse funcionamento pode começar a sentir que precisa medir cuidadosamente suas palavras para evitar conflitos, justificar constantemente suas atitudes ou até duvidar da própria percepção sobre determinadas situações.

Isso não significa que todos os relacionamentos com pessoas narcisistas serão iguais ou necessariamente abusivos. A intensidade desses comportamentos varia bastante de uma pessoa para outra e depende de diversos fatores, incluindo o grau de comprometimento da personalidade, o nível de consciência sobre o próprio funcionamento e a disposição para buscar ajuda.

Ainda assim, quando a relação se torna marcada por manipulações frequentes, desqualificação constante, controle excessivo ou sofrimento emocional persistente, é importante reconhecer que algo não está funcionando de forma saudável.

Como reconhecer que a relação está se tornando prejudicial?

  • você sente que precisa justificar tudo o que faz;
  • suas necessidades quase nunca encontram espaço;
  • pedir limites gera culpa ou grandes conflitos;
  • você começa a duvidar constantemente da própria percepção;
  • sente que está sempre tentando recuperar a harmonia, enquanto o outro raramente assume responsabilidade pelos conflitos;
  • sua autoestima diminui ao longo da relação.

O narcisismo pode mudar?

Sim, mudanças são possíveis. Entretanto, elas costumam ser um processo longo, complexo e relativamente raro.

O funcionamento narcisista não corresponde apenas a alguns comportamentos isolados, mas à maneira como a personalidade se organizou ao longo da vida. Em outras palavras, não basta aprender a agir de forma diferente. É preciso reconstruir, pouco a pouco, a forma como a pessoa percebe a si mesma, os outros e os relacionamentos.

Sob a perspectiva psicanalítica, essa transformação envolve uma profunda reorganização psíquica. A pessoa precisa desenvolver uma autoestima menos dependente da admiração constante, aprender a lidar com frustrações sem recorrer à grandiosidade como defesa e construir uma relação mais autêntica consigo mesma e com aqueles que a cercam. Trata-se de um processo que exige tempo, disponibilidade emocional e um trabalho psicoterapêutico consistente.

As pessoas com forte funcionamento narcisista dificilmente procuram ajuda por acreditarem que o problema está sempre nos outros. Como reconhecer falhas pode representar uma ameaça à identidade que construíram para proteger sua autoestima, nem sempre existe motivação para questionar o próprio funcionamento.

Quando buscam psicoterapia, frequentemente o motivo não é o narcisismo em si, mas as consequências que ele produz. Conflitos conjugais, dificuldades no trabalho, perdas importantes, sentimentos de vazio, ansiedade, depressão ou repetidos rompimentos de relacionamentos costumam ser algumas das razões que levam essas pessoas a procurar tratamento.

Mesmo nesses casos, o processo terapêutico costuma ser desafiador. Construir um vínculo de confiança, favorecer o desenvolvimento da capacidade de autorreflexão e promover mudanças em padrões de personalidade consolidados ao longo da vida exige tempo e continuidade.

Ainda assim, mudanças são possíveis. Quanto maior a capacidade da pessoa de reconhecer seu próprio funcionamento, tolerar frustrações e investir em um processo de autoconhecimento, maiores tendem a ser as possibilidades de desenvolver relações mais saudáveis e uma autoestima menos dependente da validação externa.

O maior desafio da psicoterapia é ajudar a pessoa a construir um senso de valor que não dependa de parecer superior, estar sempre certa ou ser constantemente admirada.

Considerações finais

O narcisismo é um tema que desperta curiosidade e, ao mesmo tempo, muitos equívocos. Nas redes sociais, a palavra costuma ser utilizada para descrever qualquer pessoa egoísta, manipuladora ou difícil de conviver. No entanto, como vimos ao longo deste artigo, o funcionamento narcisista é muito mais complexo do que esses rótulos sugerem.

Compreender esse funcionamento não significa justificar comportamentos que causam sofrimento, nem ignorar os impactos que eles podem ter sobre outras pessoas. Significa reconhecer que, por trás deles, existe uma forma específica de organização da personalidade, construída ao longo da vida e sustentada por mecanismos psicológicos que nem sempre são conscientes.

Ao mesmo tempo, também é importante lembrar que ter traços narcisistas não significa ter um transtorno de personalidade. Todos nós podemos apresentar, em determinados momentos, comportamentos egocêntricos, necessidade de reconhecimento ou dificuldade em lidar com críticas. O que diferencia um transtorno é a persistência, a rigidez desses padrões e o prejuízo que eles causam para a própria pessoa e para seus relacionamentos.

No fim das contas, compreender o narcisismo é compreender um pouco mais sobre a complexidade do ser humano. Quanto mais entendemos por que as pessoas funcionam da maneira como funcionam, menos dependemos de rótulos simplistas e mais desenvolvemos um olhar crítico, humano e fundamentado sobre os relacionamentos.

Quando procurar ajuda?

Se você percebe alguns dos padrões descritos neste artigo em sua vida, causando sofrimento, conflitos frequentes ou dificuldades para construir relações saudáveis, a psicoterapia pode ser um espaço importante para compreender essas questões.

Da mesma forma, se você convive com alguém que apresenta esse tipo de funcionamento e sente que a relação tem afetado sua saúde emocional, buscar acompanhamento psicológico também pode ser uma forma de entender melhor essa dinâmica, fortalecer seus limites e encontrar maneiras mais saudáveis de lidar com a situação.

A psicoterapia não existe para julgar ou rotular pessoas. Ela oferece um espaço de escuta, reflexão e autoconhecimento, no qual é possível compreender como determinados padrões emocionais foram construídos e desenvolver formas mais saudáveis de se relacionar consigo mesmo e com os outros.

Em resumo: no narcisismo, quais características costumam estar presentes?

Pessoas com forte funcionamento narcisista podem apresentar, em diferentes intensidades:

  • necessidade constante de admiração e reconhecimento;
  • dificuldade em aceitar críticas ou admitir erros;
  • sensação de ser especial ou merecer tratamento diferenciado;
  • dificuldade em considerar as necessidades do outro quando elas entram em conflito com as próprias;
  • tendência a proteger a própria imagem diante de situações que ameacem sua autoestima;
  • relacionamentos marcados por desequilíbrio, quando o outro passa a ocupar principalmente a função de validar ou sustentar sua identidade.

Essas características, isoladamente, não permitem concluir que alguém tenha Transtorno de Personalidade Narcisista. O diagnóstico depende de uma avaliação clínica cuidadosa realizada por um profissional qualificado.

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